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Não digam que estudam demais aos estudantes coreanos… ou eles colapsam.

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Depois de uma publicação referente ao sistema escolar coreano decidi explorar o tema de outro modo e com isso estrear-me como colaboradora deste blog. Tentarei ser sucinta e ao mesmo tempo trazer assuntos “profundos”.

Não é surpresa nenhuma para nós, fãs da cultura coreana, quando nos dizem que a educação na Coreia do Sul é muito exigente. E é-lo, mas até que ponto? E porquê? Quais as consequências?

A educação na Coreia do Sul é vista como uma chave para o sucesso e desenvolvimento do país. Tanta importância é dada a este sector que Barack Obama, num discurso ao Congresso dos Estados Unidos, mencionou a Coreia do Sul, dizendo: “Na Coreia do Sul os professores são considerados construtores da Nação”, e o Ministro de Educação de Singapura, quando questionado sobre o ensino privado no seu país, respondeu “Não estamos tão mal quanto a Coreia do Sul”.

São muitas as cadeiras estudadas, com especial relevo para o inglês – a Coreia do Sul foi o país a mais investir no ensino da língua inglesa nas escolas, começando logo pelas crianças do Jardim de Infância, mas curiosamente o que menos resultados obteve no ranking das escolas internacionais. Já a cadeira de Educação Física não existe em muitas das escolas por não a considerarem propriamente uma cadeira educacional, podendo esta desviar a atenção dos alunos daquilo que é mais importante: o estudo nas salas de aula.

O sistema educacional coreano começa a ser exigente principalmente naquele que chamamos o 2º e 3º ciclo do Ensino Básico português. Tal como os estudantes do 1º ciclo, estes passam grande parte do dia na mesma sala, com o mesmo professor. Os alunos começam a ter mais cuidado com os seus uniformes e penteados, pelos quais são constantemente vigiados, e até mesmo as suas vidas privadas são muitas das vezes controladas para impedir qualquer desvio. E deixo aqui outra curiosidade: 81% das escolas do ensino básico e secundário proíbem namoros entre alunos por serem demasiado “distractivos”.

Já nessa altura eles formam objectivos e estudam a sério para serem os melhores e terem um lugar no Quadro de Honra da sua escola. No 9º ano, o caso torna-se ainda mais complicado com a escolha do curso e o problema da admissão nas escolas secundárias, que têm “obrigatoriamente” de ser as melhores.

Assim que entram no Ensino Secundário as aulas tornam-se muito mais fechadas, mais focadas em temas específicos e mais viradas para o futuro, para a universidade. Dão-se inclusivamente aulas de apoio individuais, se for caso disso. Pretendem também criar nos estudantes um espírito de criatividade, independência e ambição. Devo no entanto relembrar que o Ensino Secundário não é obrigatório na Coreia, embora 97% dos jovens adultos o frequentem.

Muito competitivos, os alunos estudam dia e noite para conseguirem alcançar o “amanhã”: um trabalho promissor. Com aulas das 8h da manhã às 16h30 da tarde, com algumas pequenas pausas, e estudo extra tanto antes como depois das aulas, não é de estranhar que os coreanos sejam um dos países com população jovem mais infeliz. Alguns até chegam a preparar-se nomeadamente para a entrada da universidade estando ainda no Jardim de Infância.

Não tendo possibilidade de participar em tempos livres por falta de tempo, os estudantes chegam a ficar até à meia-noite nas escolas a estudar, e por vezes nalgumas até são as autoridades que têm de os expulsar para que estes parem de estudar.

Até àcerca de um ano a semana de aulas de um estudante coreano consistia em seis dias, sendo o sábado ocupado pela parte da manhã e um pouco da tarde. Em 2011 porém surgiu uma lei que estabeleceu que os estudantes coreanos não teriam mais aulas ao sábado, podendo aproveitar esse dia para conviver com os familiares e os amigos e realizar actividades de tempos livres.

O ensino universitário é extremamente popular na Coreia do Sul, “albergando” mais de 300 instituições de renome, e dando possibilidades como uma segunda licenciatura ou uma pós-graduação – muito solicitadas pelos estudantes. Mesmo assim, apesar de tanto esforço, a verdade é que, mesmo com uma licenciatura, 40% dos recém-licenciados estão ainda desempregados, pelo menos após os primeiros quatro meses.

Contrariamente ao nosso sistema, em que o ensino básico/secundário é bem mais fácil que o universitário (não nos preparando nada para ele, devo dizê-lo com segurança pois sofri muito no meu primeiro ano devido a isso), na Coreia do Sul tende a ser o contrário: tal como uma amiga minha coreana costuma dizer “Passei por mil e um infernos enquanto estava a estudar para entrar no ensino secundário, já o ensino universitário é mais descontraído, podemos fazer de tudo um pouco”. Vários estudantes chegam a dizer até que na universidade “quase não se estuda”.

Posto isto, alguém duvida dos motivos pelos quais os estudantes coreanos sentem tanta pressão, muitas vezes ao ponto de se suicidarem…?

Para um estudante coreano é, como já vimos, bastante difícil distanciar-se da rotina de estudo. Mesmo a família gira em volta da educação do seu filho, pois faz parte dos objectivos dos pais coreanos que os filhos tenham uma boa educação – mesmo que não haja comida na mesa, ou pouco dinheiro para pagar as despesas mensais da casa, o importante é que o filho vá para a universidade (segundo um estudo da CSLA, 100% dos pais querem que os filhos ingressem no ensino superior).

Pais a rezar para que os filhos sejam admitidos

Para tal, ao longo dos anos, contratam professores particulares para os filhos, se for caso disso, ou ajudam-nos com os estudos. O papel dos pais na educação dos filhos é tão importante que em épocas de exames os negócios abrem mais tarde, de modo a ajudar os pais que estiveram a estudar com os filhos até a altas horas da noite. Mesmo os pais estão envolvidos em encontros em grupos de como ajudar mais os filhos na educação, estabelecendo assim uma ponte entre os professores e os pais dos alunos.

Tudo isto leva a que os estudantes sintam uma grande pressão, tanto por parte da escola como por parte dos familiares, que esperam que eles sejam alguém na vida. Uma rotina que consiste em levantar, estudar, deitar. O stress diário e o medo de falhar. Tudo isso e mais outras exigências da sociedade – como o peso, por exemplo: uma jovem coreana que pese acima da média é já descriminada, às vezes mesmo pela própria família – leva às elevadas taxas de suicídio de que já ouvimos falar.

Num inquérito feito a estudantes, 50% deles já admitiram terem pensado em cometer suicídio, enquanto na vida real a taxa de suicídio de jovens coreanos dos quinze aos vinte e quatro anos é de 15 em 100.000 habitantes, isso contrastando com os 10 americanos, 7 chineses e  5 britânicos. Só no ano 2009 ocorreram 202 casos de suicídio entre estudantes.

Deixo-vos aqui uns vídeos sobre o assunto que são sempre bons de rever:

Portanto já sabem – antes de dizerem que estão fartos da escola pensem quanta sorte têm por desde pequenos não viverem neste tipo de pressão. Espero que tenham gostado deste artigo e que, mesmo sendo o meu primeiro, tenham ficado a aprender alguma coisa de interessante!

Fontes: Wiki, State University,  Ncee, Asia Society, Economist, Time

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6 thoughts on “Não digam que estudam demais aos estudantes coreanos… ou eles colapsam.

  1. Gostei muitíssimo! Como leitora assídua do Coisas, amiga de facebook das três autoras iniciais, e parceria oficial – as minhas boas vindas! Da minha parte, e da parte do resto da equipa da Yeobo’s Daily News.

    Foi um artigo redigido de forma irrepreensível, e extremamente informativo. Admito que eu própria não sabia muitos detalhes que mencionas.

    Os meus parabéns!
    Rute

  2. Artigo fantástico! Por acaso era algo que me intriga um pouco o facto da educação coreana ser assim… Mas cada país tem as suas medidas e há que respeitá-las.
    Adoro o vosso trabalho aqui no blog~
    Fighiting!

  3. É assustador só de imaginar viver assim… Para nós, “do lado de fora”, soa quase como tortura. O mais assustador é saber que eles acham isso normal, tanto o estudo excessivo quanto a pressão e o bullying.

  4. Oi! Acabei de descobrir seu blog e não consigo parar de lê-lo! Sou brasileira, e suponho que as donas do blog sejam portuguesas (?)_ adoro a escrita de vocês!
    Eu tenho um carinho muito especial pela Coreia do Sul, não somente pela música, embora ela seja, como já li em outro post, a porta de entrada para esse delicioso mundinho.

    Esse post em especial me chamou mais atenção. Tenho amigos virtuais coreanos, e eles geralmente nunca tem tempo para falar comigo, devido à rotina puxada de estudos. Quando digo que faço faculdade e trabalho, eles se assustam, pois não imaginam onde arranjo tempo para me dedicar a outras coisas que não sejam os estudos.
    Ninguém discorda que a educação é um dos principais fatores para o país ser tão bem sucedido, mas certamente passar sua vida estudando obcecadamente e nem ao menos ter a garantia que terá um emprego bom e um futuro promissor é algo assustador, ainda mais para pessoas tão jovens, que ainda estão formando sua personalidade. E para piorar, ainda há cobrança em outros setores da vida, como a obsessão pela aparência…

    Mas ainda assim, volta e meia me surge uma invejinha deles. Gostaria que meu país fosse tão comprometido com a educação quanto a Coreia. Os índices de analfabetismo (incluindo o funcional) são desesperadores aqui. Fora que meus pais nunca sequer me deram parabéns por passar no vestibular, por exemplo, enquanto lá as pessoas tornam objetivo de vida a boa educação do filho.

    Parabéns pelo blog, e desculpem meu comentário imenso!!!

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