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Os "filhos da guerra" na Coreia do Sul

 

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Neste artigo venho-vos falar de um tema que para mim era desconhecido e penso que para muitos de vós também, a história dos filhos da guerra.

 

Como sou uma pessoa que gosta de “coisas” orientais e da Coreia, aconselharam-me a ler um livro que podia achar interessante. Foi um bocadinho difícil de encontrar (porque o livro já é antigo) mas a aplaceforustodream foi uma pessoa muito fixe e lá me arranjou o livro! O livro é da escritora Pearl S. Buck (que, pelo que vi, gosta muito da Ásia), chama-se Filhos da Guerra e fala de uma realidade coreana muito pouco, diria, digna e que ainda hoje, em pleno século XXI é visível na sociedade coreana.

Fala-nos das crianças “mestiças”, ou seja, de crianças que nasceram de mãe coreana e pai americano (ou ocidental).

Toda a gente sabe que desde a guerra das Coreias a presença de soldados americanos em território Sul Coreano tem sido uma constante. Passando estes homens tanto tempo longe de suas casas, obviamente que criam laços e se envolvem com os coreanos, mais especificamente as mulheres.

Este livro  conta-nos a história de um desses soldados que durante o seu tempo na Coreia, e mesmo tendo uma noiva em casa, se envolveu com uma mulher coreana e dessa relação nasceu um filho. A história desenvolve-se de uma forma que eu não vou contar aqui para não “spoilar”, mas que me deu conhecer os casos destas crianças. (Isto é tudo ficção claro está, mas que foi realidade para muitos).

Estas relações entre coreanas e ocidentais não eram muito bem vistas pela sociedade coreana na altura da guerra e ainda hoje não o são. Quem sofria com estes complexos da sociedade eram as mulheres, claro está, mas especialmente as crianças.

Um facto que eu não sabia é que na Coreia o homem é que tem direitos sobre a criança, uma criança sem pai não podia ser registada e era basicamente inexistente para o Estado, segundo o que entendi, e estas crianças não tinham cidadania coreana. Isto acontecia com muitas destas crianças porque muitos dos soldados voltavam para casa e, ou não queriam saber dos filhos, ou iam antes de saber que eles existiam.

Para a população estas crianças eram filhos de prostitutas que trabalhavam nos “red light districts” nas zonas militares.  Eram o espelho da degradação da sociedade coreana, que não admitia misturas de raças. Como consequência disto, as crianças eram consideras o lixo da sociedade (por assim dizer), e o próprio governo tentou erradicá-las.

Ao investigar sobre este assunto, pensei que isto era um problema do tempo da guerra, mas não… Isto é um problema muito recente!

Só em 2006 é que foi criada a primeira política multi-cultural, onde as famílias multi-culturais recebiam benefícios e assistência para a sua integração na sociedade coreana.

As estatísticas de 2002 indicam que estas pessoas têm um nível de educação inferior, salários mais baixos e níveis de desemprego mais altos.

Muitas destas crianças eram discriminadas nas escolas, tanto por colegas como por professores e acabavam por desistir dos estudos.

Quando falo destes casos, estou a falar de crianças que tiveram a infelicidade de serem desprezadas pelos pais e de serem criadas por mães solteiras, porque os que tinham os pais juntos, normalmente estudavam em escolas militares e estavam inseridos nas comunidades militares americanas.

Tudo isto  é resultado da cultura de raça muito presente na Coreia, onde o sangue puro é de uma importância tão grande que chega a ser ridículo.

Por causa deste desprezo pelas crianças com sangue misturado, muitos artistas tinham medo de revelar que eram filhos de pais americanos com medo de destruir as suas carreiras. E, até há bem pouco tempo, os homens que fossem “mestiços” não podiam cumprir o serviço militar (que é obrigatório para todos os homens coreanos… irónico não é?).

Este livro levou-me a conhecer um lado da sociedade coreana que, sinceramente, não me agrada, mas que ao mesmo tempo não me surpreende. Já vimos vários actos de racismo contra ocidentais, até em reportagens do mais estúpido (desculpem a linguagem) que há. Aconselho o livro a quem quiser ter uma pequena luz da sociedade coreana na época da guerra e que, infelizmente mostra que a sociedade coreana não mudou assim tanto apesar de estarmos em pleno século XXI.

 

Fontes:

Os Filhos da Guerra – Pearl S. Buck

Being Amerasian in South Korea: Purebloodness, Multiculturalism, and Living
Alongside the U.S. Military Empire – Yuri W. Doolan

 

 

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